Veja como o Jardim Literário está vicejante.

Só falta você.

Florido e encantador, nasce o Jardim Literário, prometendo transformar-se numa praça, onde as borboletas virão se alimentar do néctar das flores. Na certeza de que os jardineiros irão sempre fertilizá-lo, a cada dia teremos botões desabrochando e muitas rosas farão este jardim ficar mais poético e inspirador.

Agradecemos a todos que deram início a esta jardinagem e convidamos você para fazer parte deste jardim.

Todas as quintas-feiras, das 8h às 10h, na Rua dos Prazeres, 248, Ilha do leite (próximo a Praça Miguel de Cervantes)

Contato: 81-9971.9354 /3222.0894

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

DEMÊNCIA - Djanira Silva



(Brincando com a letra D)

Deixo para trás o que penso e o que resolvo não fazer. Assumo o que os ajuizados e preocupados chamam de demência. Isto mesmo, demência. Eu e ela nos entendemos e nos damos bem. Escolhemos sempre o melhor - não fazer nada.
Devolvo ao tempo as ordens que recebo sem pensar, sem refletir. Cumpri-las, já não me interessa. O não fazer, é ótimo. Não tem conseqüências, não cria problemas, ninguém reclama que está mal feito. É, não restam dúvidas, a melhor coisa do mundo.
Deveres e obrigações, horários determinados, tarefas a realizar cansam e gastam as energias.
Durmo com preguiça. Desperto com ela. Deixo-a à vontade. Preguiça é quase gente.
Despacho deveres e obrigações para o espaço ponho as pernas para cima, suspiro, me deito e me arrepio toda da alegria que sinto de poder dispor de mim mesma.
Será demência mesmo, ou apenas um vício? Bem seja lá o que for não prejudica ninguém. Sonho, acordo, ando na chuva, e volto para casa se quiser. Ninguém me espera e não estou nem aí para este vazio. Se ele continuar, melhor, mais tempo livre para o não fazer e parar de pensar no que fazer.
Detenho-me diante de mim com minha nova face. Estranha? Que importa. Demência? Que seja. Ela segura os impulsos como a bengala segura os passos. Se cair, caí. Então, concluo que, se estivesse fazendo alguma coisa, cairia na certa.
Divirto-me com esta demência precoce. Precoce? Sei lá. Se alguém gostar pode imitar não será plágio.
Durmo quando quero. Desperto sem querer. Isto é ótimo. Tenho duas vontades uma manda a outra desmanda. Uma eu conheço a outra me conhece. Nunca poderei escolher. Fico assim mesmo. Se me der bem, muito bem, se me der mal, muito mal.
Detenho-me diante desse novo mundo que cresce a olhos vistos. Estou muito bem assim. Tenho medo de botar olhado em mim mesma.
Decidi, por unanimidade, viver uma vida desocupacional. Esta opção é um privilégio porque as pessoas sempre têm o que fazer e às vezes nem fazem bem feito. Na verdade, gosto de escrever, ofício que considero igual a não fazer nada, só existirá se existir leitor. Meus leitores estão esgotados, não, não são os livros, são os leitores mesmo. O ato de escrever não é obrigação é imposição. Imposição daquele outro eu que não conheço, aquele que me acorda todas as manhãs e à noite me faz adormecer cheia de idéias, idéias das quais na manhã seguinte já nem lembro mais.
Desvio-me dos labirintos que os pensamentos desenham para me distrair. Não adianta, continuo assim, assim mesmo, tão útil como uma coisa que já foi. Chega de tanta obrigação. Passei, quase meio século de vida pendurada nas pernas do relógio, rolando pra lá e pra cá, vasculhando as horas, procurando espaço onde coubessem todos os meus afazeres. Menino pra mamar, pra comer, para estudar, marido procurador, isto é, procurador de encrencas e de outras coisas mais, casa cheia de móveis inúteis, estatuetas sem graça, peças raras que de vez em quando se espatifavam no chão virando cacos. Pra que tudo isto? Não levarei nada comigo. Muito tarde descobri que mortalha não tem bolso e caixão não tem gaveta. Estou cansada de ver sempre as mesmas coisas. Mal enxergo onde piso, mal escuto o que os outros dizem, e sinto as dores da velhice zombando da pressa dos meus quinze anos.
Assinei minha carta de alforria. Vida livre, vida nova.os. Já não tenho deveres nem obrigações. Cozinhar, lavar, passar, um sem número de tarefas, tarefas que fui passando adiante, pois encontrei alguém mais besta do que eu.
Demente, nada, estou mesmo é sabida Livrei-me das pernas do relógio e passei a cuidar das minhas são elas que me ajudam a não fazer um nada muito bem feito.

Djanira

domingo, 25 de outubro de 2009

Manteigueira & Saboneteira - Paulo Fernandes






Era comum no escritório os funcionários tomarem um cafezinho com bolacha e manteiga.
Um dia, verificamos que a manteigueira havia sumido, então, Dr. Silva, chefe do setor, me pediu para comprar outra. Fui ao mercado próximo mas encontrei manteigueiras meio cara e, como não dispunha de dinheiro suficiente,.vi uma saboneteira e pensei – vai servir. Comprei-a e também um tablete de manteiga. Retornei ao escritório, porém os colegas já haviam saído. Coloquei a manteiga na saboneteira e deixei junto do pote de bolachas, no local reservado ao cafezinho que era na frente do meu birô.
Na manha seguinte, Sandro foi o primeiro a vir tomar café . Pegou uma bolacha e perguntou:
- Cadê a manteiga? ,
- Tá aí, respondi.
- Aí onde?
- Na sua frente!
- Não estou vendo! O que tem aqui é uma saboneteira!
- Isso mesmo, abra e você vai ver!
- Desconfiado ele abriu... Surpreso:
- É mesmo! ... Risos!.
O mesmo aconteceu com os outros colegas.
Foi um dia bastante divertido! Afinal, não é todo dia que uma saboneteira vira manteigueira!
No dia seguinte: Dr.Fernando, chefe do Distrito, acabara de chegar, indo direto ao banheiro.e, ao abrir a saboneteira, não acreditou no que viu e gritou:
- Tão querendo me sacanear! Chamou Ana, a secretária, lhe mostrou a saboneteira e disse: É brincadeira? Quero saber quem fez isso, Agora!
Dona Ana telefona para a responsável pela limpeza , fica sabendo que a saboneteira foi encontrada na copa e levada para o benheiro pela senhora da limpeza que pensava que era do banheiro do Dr Fernando. Ana entra em contato com a copa e lá é informada que a saboneteira estava na sala do Dr Silva. Ela faz ciencia dos fatos ao Chefe. e ele manda chamar Dr Silva, chefe do setor.. :
- Quando o Dr. Silva chega, de cara já ver a saboneteira em cima da mesa de reunião- O chefe apontando para ela se explique!
- Sim, disse Dr. Silva e foi logo adiantando foi coisa do Paulo , colega lá da Sala !
Por favor, Dona Ana, chame o Paulo..
- Quando recebi o chamado, imaginei: deve ser bronca , mas não fazia idéia do que era. -
Sente-se por favor , disse me o chefe e apontando para saboneteira , me pergunta: sabe quem foi o responsável?
-De certa forma, foi Dr. Silva
-Eu? Essa não! Apenas lhe pedi para comprar uma manteigueira. A “brilhante” idéia foi sua!
- Mas o senhor aprovou e até achou legal!
- Isso é verdade mas se eu adivinhasse, tinha preferido ter comido bolachas sem manteiga, no seco!
Dr. Fernando entendendo tudo, relaxou. Ficou feito manteiga derretida. Risos... Depois disse:
Apesar de toda confusão , não posso deixar de reconhecer que foi um ideia, inovadora , livre e ousada, é do que precisamos,mas ainda vivemos sobre o dominio das formas e nomes, não estamos preparados para essa liberdade de visão! Tapinhas nas costas.,- Já podem ir. Risos!
À tarde, recebemos outra manteigueira, atestando de que tudo voltou ao “ normal”, ou seja, ao velho paradigama...
Ufa! Achei que aquele episódio havia se encerrado por ali... mas eu estava enganado. Após o almoço, fui ao banheiro e lá ouvi , devia ser o pessoa da limpeza.Fiquei preocupado , mas ao mesmo tempo segurei a garlhada a conversao foi a seguinte:
- Rapaz, soubesse o que houve de manhã?
- Foi um correcorre danado! colocaram uma bomba no banheiro do Chefe. Iimagina:. dentro de uma saboneteira, pode?
- O quê? Virgem Maria! Deve ter sido um terrorista!
- Acho que sim!
– nossa! Ninguem tá livre, né?
Ainda hoje, guardo a saboneteira , como lembrança de inicio da mudança de paradgma: nos libertar do dominio da formas e nomes.

Paulo Fernandes

Cantigas de Roda - Cléa Muller


Alguém já disse que o ato criativo é como um parto; não tem hora para acontecer. O bebê sente quando está pronto para vir ao mundo; mas não sabe a hora exata. O médico deve ficar atento para ampará-lo, quando essa hora chegar.

Assim também uma história não escolhe a hora mais conveniente; ela simplesmente surge. O escritor é como o obstetra: pronto para o ato criativo.

Na noite passada quase não dormi. Ao colocar a cabeça no travesseiro, vieram recordações da infância. Saudades do tempo das cantigas de roda, misturadas com as histórias de minha vida.
Fechei os olhos. Sentindo-me um tanto ridícula, cantarolei, apenas num murmúrio:

“Senhora dona Cândida
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Quero ver a sua graça.”

Em pensamento me encontrava acocorada, no centro da roda, mãos tapando os olhos, como no tempo em que brincava.
Aos poucos fui recordando outras cantorias infantis:

“O cravo brigou com a rosa
De baixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despetalada”

“Teresinha de Jesus
Numa queda foi ao chão
Acudiram três cavaleiros
Todos três de chapéu na mâo”

Muitas e muitas outras povoaram meu sonhar acordada. Senti que todas retratavam minha infância, meus amores e o caminho que fui escolhendo viver.

Já estava amanhecendo quando fechei os olhos para dormir. Senti-os úmidos de lágrimas. Saudade e alegria pelos passos que me trouxeram até aqui.

ALFABETO - Ivoneide Anacleto Porto


A
Árvore - amor.
No abecedário distribuído no Jardim Literário na letra A escrevi árvore e amor. Logo verifiquei a congruência entre os dois vocábulos. Árvore fruto do amor entre a semente e a terra que num casamento amoroso gera a árvore frondosa e plena de flores e frutos.
B
Beleza.
Quando falo em beleza, faço-o, sobretudo pensando na beleza interior. Daquela beleza que está na delicadeza dos gestos transformadora da essência. Da genuína beleza.
C
Comunhão.
Comunhão de pensamentos, conceitos, vidas, ideais. A verdadeira comunhão. Comunhão que leva a uma integração perfeita entre as pessoas, sem duvida, entre as pessoas que comungam de um compartilhamento vital.
D
Dádiva.
A dádiva é o gesto mais nobre do coração. É a doação que se pratica sem pensamento de retorno. Daí a sua nobreza.
E
Esfuziante.
Gosto das pessoas esfuziantes. Conheço algumas assim. Trazem alegria para nossas vidas, amainam nossas tristezas, derramam satisfação, júbilo, contentamento e exultação por onde quer que passem. Bendigo-as.
F
Felicidade.
Felicidade é um estado de espírito. No mundo hodierno onde tudo parece contribuir para a preocupação, o medo, a angústia, há que se buscar a felicidade nas coisas simples da vida: um jardim cheio de flores; em pássaros multicores nos galhos das árvores; na mansidão do mar que nos pacifica; no sorriso das crianças e disso tudo usufruirmos. Assim creio eu.
G
Generosa.
Admiro profundamente a virtude da generosidade. Talvez porque haja convivido com u’a pessoa a mais generosa das tantas que conheci. A minha mãe era de uma generosidade impar. Sem arroubos. Sem astardalhaços. Simplesmente generosa. Não distinguia ninguém. Sempre disponível a ajudar, a doar-se fosse quem a quem fosse. Por isso deve estar hoje, curtindo no céu as recompensas de seu despojamento.
H
Habilidade.
Ah! O dom da habilidade. Habilidade das mãos cuidando, embelezando tudo o que toca. É um arranjo de flores aqui, uma tela pintada ali, um maravilhoso bordado acolá. Entretanto a habilidade maior é a da convivência com as pessoas. Aquela que passeia entre todos sem ferir e sem deixar-se ferir. Simplesmente abrandando, serenando um desentendimento iminente e concorrendo assim para a paz de todos.
I
Irmandade.
Há tantas formas de irmandade! Quero referir-me, no entanto, à fraternidade íntima dos irmãos. Daqueles, cujos ouvidos estão sempre disponíveis a ouvir as mágoas, as dores, as confidências e também falar palavras de compreensão, de apoio, de cumplicidade. Felizes dos que, como eu, usufruem de irmãos com todas estas características.
J
Jardim.
Entre os belos recantos de uma residência, de um bairro, de uma cidade, há que se ressaltar os que são reservados aos jardins. Jardins com especimens de flores as mais variadas, mais coloridas, mais lindas, disputando a beleza multicor, a fragrância que emprestam a aqueles locais. L
Luz.
Quando escrevi luz na letra L pensei não só na luz que nos dá claridade, nos ilumina, mas, de uma luz interior que nos contagia, nos contamina, nos induz a atos generosos, à grandeza da alma, à sensibilidade, à necessidade de nossos irmãos desafortunados, da luz que realmente conta.
M
Maternidade.
A palavra maternidade, de saída, me comove. De todas as faculdades que Deus incumbiu ao homem de realizar a maternidade é sem dúvida, a mais bela de todas as demais. Conceber um filho aconchegá-lo no seu corpo, dar-lhe a luz, criá-lo, educá-lo é uma tarefa grandiosa, sublime. E, tudo fazer para que, um dia, volte para a casa do Pai, é uma incumbência divina.
N
Navio.
Só olhar um navio leva-me a vislumbrar por onde ele pode passar e levar-me a lugares nunca dantes conhecidos, com suas peculiaridades, seu povo com seus hábitos e costumes sempre diferentes dos nossos, suas histórias de grandeza inusitadas ou não, mas sempre enriquecedoras. O
Ontem.
Não gosto do ontem. O ontem é passado. Bom ou ruim, já passou. Se bom, serve para incorporar algo no presente com vistas ao futuro e tudo bem. Do contrário, é melhor esquecê-lo. Não merece ser lembrado.
P
Palavra.
A palavra quando usada positivamente é a maneira mais sublime, mais inexcedível de expressar um sentimento que alimenta e acalenta a alma. Faz-nos bem a vida. Exalta a beleza a amizade, o amor. A mim, ela me toca profundamente, sobretudo a palavra autêntica, legítima, gernuina.
Q
Querida.
E a palavra síntese do sentimento do bem querer. Deste sentimento de que todos somos carentes quando nos falta e enormemente ricos quando o temos e sentimos. Queridas deveriam ser a família primeira de onde nascemos, a família maior mais ampla dos amigos e uma predisposição para assim sentirmo-nos com todos que nos cercam ou venham a aproximar-se de nós.
R
Rosa.
Para aquilatarem o que penso da Rosa, quero só dizer que o escolhi-o e dei-o a uma de minhas filhas.
S
Sermão.
Há o “sermão” tedioso da reclamação constante, sempre igual, que não corrige porque aborrece, antes de tudo. Mas quero falar do sermão que é a explicação da palavra de Deus, transcrita no Evangelho e interpretada pelo celebrante nas missas, sobretudo, dominicais. Quando bem feito é esclarecedor e alimentador do coração, da alma, da espiritualidade.
T
Travessia.
Travessia de um lugar para outro. De um continente para outro. Mas penso agora na travessia de um estado de tristeza para um de alegria, de incredulidade para um de certeza, de um estado de pecado para um estado de graça, de bem aventurança.
U
União.
União de colegas, amigos, irmãos é um sentimento de aconchego que alegra, apazigua e é pleno de felicidade.
V
Vitória.
É a recompensa, o retorno de um trabalho realizado, de uma conquista obtida. A vitória favorece um estado de euforia, a certeza de uma justiça cumprida. É gratificante.
X
Xereta.
Tomei conhecimento deste vocábulo há pouco tempo. O xereta é adulador. Não merece confiança porque é bajulador. É também uma pessoa que leva e traz e assim procede conforme seus interesses pessoais. Desprezível.
Z
Zen.
Meditação budista nascida no Oriente que vem se difundindo cada vez mais pelo Ocidente. É uma meditação intuitiva, isto é, que objetiva a compreensão da realidade e de nós próprios. São momentos de silêncio que favorecem esse conhecimento e facultam uma mudança de comportamento.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

PIANO - Cléa Muller


Idade de Cecília: 10 anos.
Por essa época há uma grande mudança em sua vida. Seus pais a colocam em um colégio novo. Por ser muito distante de sua residência, resolvem que ela ficará em tempo integral na escola, onde fará os deveres (que seriam de casa), aprenderá bordado, fará educação física e rezar, pois as educadoras são freiras.
No início é difícil a adaptação. Aos poucos vai entrando no ritmo do lugar, dos mestres e colegas.
Um certo dia, passando por uma ala da escola na qual ainda não havia estado, percebe um som que nunca tinha ouvido. Anda de um lado para outro do corredor, até descobrir de onde vem aquela melodia .Imagina-se transportada nas asas de anjos! Não titubeia em abrir a porta, que, na sua cabecinha inocente, é a porta do céu.
“ Só pode ser o paraíso e anjos devem morar aí. Preciso conhecê-los”
O clic do trinco a assusta um pouco; ainda mais que ela sabe que está andando por lugares proibidos para as alunas.
Em vez de anjo depara-se com uma mocinha muito simpática, sentada em um banco e dedilha um instrumento. O som para no momento da intromissão. Cecília está prestes a dar meia volta e sair correndo, com medo da carraspana, que com certeza irá levar. Os olhos ficam marejados e ela empalidece.
Acontece que a doce mocinha, que se chama Luiza, não é santa; também não é diabo. Ao perceber que tem uma ouvinte curiosa, convida-a, gentilmente, a entrar.
Um misto de vergonha e alegria a deixa inerte, sem saber que atitude tomar. A moça, que na verdade é professora de música, incita Cecília a sentar-se no banco, ao seu lado. Encabulada, aproxima-se devagar, ficando frente à frente com um instrumento lindo e tão diferente que a deixa deslumbrada.
“Parece uma comprida dentadura com dentes brancos e pretos.” Pensa.
Não cabe em si de contente quando Luiza explica: -Nós estamos sentadas diante de um instrumento musical chamado piano e aqui, são as teclas ;indicando “ os dentes” pretos e brancos.-Ao serem tocadas, de dentro do piano saem os sons.
Delicadamente a professora coloca as mãos da menina sobre o teclado. Cecília faz leve pressão sobre as teclas. Os olhos brilharam de satisfação. Exclama, encantada por sua façanha: -E não é que consegui? Olhando a professora diz, contente: -Sai som !
Mais contente fica quando inicia a ter aulas de verdade. O teclado passa a ser continuação dos seus braços e dedos ; ela se transporta a um mundo de sonho.Lindo e suave.As melodias que vibram através deles mexem com a sensibilidade de todos o que a ouvem..

sábado, 3 de outubro de 2009

LIBERDADE - Iza Varejão



Liberdade de amar, de sorrir, de ir e voltar, de viver, de caminhar, liberdade de tudo.
Respeitando a liberdade do outro, você será:


Livre
Independente
Belo
Encantador
Real
Dinâmico
Amoroso
Divino
Espetacular

REFLEXÕES - Djanira Silva


A letra R escolhi
Neste meu prazer diário
E este texto escrevi
Para o Jardim Literário

REFLEXÕES

Reajo diante de mudanças.

Rever todos os dias os mesmo lugares, repetir as mesmas coisas, tornou-se um hábito como respirar, ver, ouvir ou falar, tudo na verdade, uma arrumação sem sentido.

Rotina quebrada deixa-me confusa.

Retorno do sono. Olho ao redor. Reluto contra um mundo fixo, um mundo que não sai do lugar, que não se renova que transforma o homem num zumbi.

Retomo as rédeas das indecisões e vejo que minha maior reação é contra o que sou. Na verdade, não sei o que quero, sequer acredito no que penso.

Revejo o mundo. Procuro, através das coisas, mistérios que nunca soube explicar.

Refreio sentimento, reduzo a velocidade das lembranças.

Recuso-me a embarcar na arrumação dos dias. Uma realidade arrumada se interpõe entre querer e fazer, sonhar e ver a verdade de cada um, destorcendo imagens construídas na indecisão.

Renasço para pensar que sou feliz. Resguardo tudo quanto pensei, amei, acreditei. De ser criança não tive culpa se cresci foi contra a vontade. Desejar ser gente grande, desejei e hoje amargo os enganos de um desejo perdido.

Releio, página por página, a minha história. Nada de novo. Nada de velho. Tudo sem seqüência, sem coerência.

Resignada caminho por entre pedras que me esmagam os pés e se jogam contra meu rosto apagando o meu sorriso.

Rio e choro e sigo o rio que lava os pés das bananeiras enchendo a várzea das passadas miúdas de crianças verdes e do olhar verde da menina verde que atravessa o mato, feito as folhas maduras que rodopiam sobre seus cabelos cor de mel.

Respiro como se fosse a última vez. Reclamo diante do que sou. Nada fiz para melhorar as belezas de um mundo que recebi de graça. Não sei se partirei de mãos vazias. Não sei se deixarei qualquer lembrança. Talvez a relva esmagada denuncie meus passos.

Reconheço mensagens na natureza. Paro, olho escuto.

Rosas desfolhadas, na entrega do mel.

Refulgentes borboletas de flor em flor na colheita da vida

Resistirei à minha insignificância? Representarei o papel que recebi ou subverterei a ordem da vida para acreditar que sou feliz?

Rasgo papéis, recorto jornais, recolho fragmentos de idéias alheias. Refugio-me nos enganos da inspiração. Penso que penso.

Resisto, tenho que resistir ao desânimo que me desacredita. Por que não encher as mãos de flores e espalhá-las por aí deixando que as sementes me entreguem os mistérios de tudo quanto não sei?

Remontarei com pedaços de mim um mundo novo, pedaços que já se encontravam incorporados ao universo muito antes da minha chegada.

Respostas? Estão aí, nas coisas mais simples. No canto do bem-te-vi, no vôo do beija flor e na indiferença do homem que não consegue escutar os derradeiros gritos de um mundo em decadência..

Réquiem para uma natureza morta