
(Brincando com a letra D)
Deixo para trás o que penso e o que resolvo não fazer. Assumo o que os ajuizados e preocupados chamam de demência. Isto mesmo, demência. Eu e ela nos entendemos e nos damos bem. Escolhemos sempre o melhor - não fazer nada.
Devolvo ao tempo as ordens que recebo sem pensar, sem refletir. Cumpri-las, já não me interessa. O não fazer, é ótimo. Não tem conseqüências, não cria problemas, ninguém reclama que está mal feito. É, não restam dúvidas, a melhor coisa do mundo.
Deveres e obrigações, horários determinados, tarefas a realizar cansam e gastam as energias.
Durmo com preguiça. Desperto com ela. Deixo-a à vontade. Preguiça é quase gente.
Despacho deveres e obrigações para o espaço ponho as pernas para cima, suspiro, me deito e me arrepio toda da alegria que sinto de poder dispor de mim mesma.
Será demência mesmo, ou apenas um vício? Bem seja lá o que for não prejudica ninguém. Sonho, acordo, ando na chuva, e volto para casa se quiser. Ninguém me espera e não estou nem aí para este vazio. Se ele continuar, melhor, mais tempo livre para o não fazer e parar de pensar no que fazer.
Detenho-me diante de mim com minha nova face. Estranha? Que importa. Demência? Que seja. Ela segura os impulsos como a bengala segura os passos. Se cair, caí. Então, concluo que, se estivesse fazendo alguma coisa, cairia na certa.
Divirto-me com esta demência precoce. Precoce? Sei lá. Se alguém gostar pode imitar não será plágio.
Durmo quando quero. Desperto sem querer. Isto é ótimo. Tenho duas vontades uma manda a outra desmanda. Uma eu conheço a outra me conhece. Nunca poderei escolher. Fico assim mesmo. Se me der bem, muito bem, se me der mal, muito mal.
Detenho-me diante desse novo mundo que cresce a olhos vistos. Estou muito bem assim. Tenho medo de botar olhado em mim mesma.
Decidi, por unanimidade, viver uma vida desocupacional. Esta opção é um privilégio porque as pessoas sempre têm o que fazer e às vezes nem fazem bem feito. Na verdade, gosto de escrever, ofício que considero igual a não fazer nada, só existirá se existir leitor. Meus leitores estão esgotados, não, não são os livros, são os leitores mesmo. O ato de escrever não é obrigação é imposição. Imposição daquele outro eu que não conheço, aquele que me acorda todas as manhãs e à noite me faz adormecer cheia de idéias, idéias das quais na manhã seguinte já nem lembro mais.
Desvio-me dos labirintos que os pensamentos desenham para me distrair. Não adianta, continuo assim, assim mesmo, tão útil como uma coisa que já foi. Chega de tanta obrigação. Passei, quase meio século de vida pendurada nas pernas do relógio, rolando pra lá e pra cá, vasculhando as horas, procurando espaço onde coubessem todos os meus afazeres. Menino pra mamar, pra comer, para estudar, marido procurador, isto é, procurador de encrencas e de outras coisas mais, casa cheia de móveis inúteis, estatuetas sem graça, peças raras que de vez em quando se espatifavam no chão virando cacos. Pra que tudo isto? Não levarei nada comigo. Muito tarde descobri que mortalha não tem bolso e caixão não tem gaveta. Estou cansada de ver sempre as mesmas coisas. Mal enxergo onde piso, mal escuto o que os outros dizem, e sinto as dores da velhice zombando da pressa dos meus quinze anos.
Assinei minha carta de alforria. Vida livre, vida nova.os. Já não tenho deveres nem obrigações. Cozinhar, lavar, passar, um sem número de tarefas, tarefas que fui passando adiante, pois encontrei alguém mais besta do que eu.
Demente, nada, estou mesmo é sabida Livrei-me das pernas do relógio e passei a cuidar das minhas são elas que me ajudam a não fazer um nada muito bem feito.
Djanira
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