
Alguém já disse que o ato criativo é como um parto; não tem hora para acontecer. O bebê sente quando está pronto para vir ao mundo; mas não sabe a hora exata. O médico deve ficar atento para ampará-lo, quando essa hora chegar.
Assim também uma história não escolhe a hora mais conveniente; ela simplesmente surge. O escritor é como o obstetra: pronto para o ato criativo.
Na noite passada quase não dormi. Ao colocar a cabeça no travesseiro, vieram recordações da infância. Saudades do tempo das cantigas de roda, misturadas com as histórias de minha vida.
Fechei os olhos. Sentindo-me um tanto ridícula, cantarolei, apenas num murmúrio:
“Senhora dona Cândida
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Quero ver a sua graça.”
Em pensamento me encontrava acocorada, no centro da roda, mãos tapando os olhos, como no tempo em que brincava.
Aos poucos fui recordando outras cantorias infantis:
“O cravo brigou com a rosa
De baixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despetalada”
“Teresinha de Jesus
Numa queda foi ao chão
Acudiram três cavaleiros
Todos três de chapéu na mâo”
Muitas e muitas outras povoaram meu sonhar acordada. Senti que todas retratavam minha infância, meus amores e o caminho que fui escolhendo viver.
Já estava amanhecendo quando fechei os olhos para dormir. Senti-os úmidos de lágrimas. Saudade e alegria pelos passos que me trouxeram até aqui.
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