Veja como o Jardim Literário está vicejante.

Só falta você.

Florido e encantador, nasce o Jardim Literário, prometendo transformar-se numa praça, onde as borboletas virão se alimentar do néctar das flores. Na certeza de que os jardineiros irão sempre fertilizá-lo, a cada dia teremos botões desabrochando e muitas rosas farão este jardim ficar mais poético e inspirador.

Agradecemos a todos que deram início a esta jardinagem e convidamos você para fazer parte deste jardim.

Todas as quintas-feiras, das 8h às 10h, na Rua dos Prazeres, 248, Ilha do leite (próximo a Praça Miguel de Cervantes)

Contato: 81-9971.9354 /3222.0894

Escolha uma letra

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Crie uma palavra e escreva um texto.


domingo, 6 de dezembro de 2009

ALFABETO - Maria JoséKlimsa


mariaklimsa@yahoo.com.br


Alfabeto de massa, brinquedo infantil. No jardim de infância a criança entra no universo dos símbolos e vai descobrindo a magia das palavras através da letra, que encabeça cada nome.
Macarrão de letrinhas, sopa cheirando a alfabeto, colheradas de fantasia, beijos de fumaça. Letras que deslizam no caldo são sonhos que percorrem o imaginário. Projetos que montam no dorso da inocência. No papel, o desenho da letra. Na mente, o registro das significações, o corte e o recorte do que simboliza cada traço. Palavras vestidas de riqueza jardinam a mente infantil. Escrita e papel sintonizam, apontam caminhos. Partida para tecer o texto, voo para a comunicação, rasgo para a vida.
Outros jardins vão florindo pela existência. Nem sempre de viçosas flores e sedutor perfume.
Um jardim literário nos leva de volta àquele primeiro. E aí voltamos a aprender, brincando de “gente pequena”. Juntamos às letras tiras de invenção. E, no divertimento da livre associação, brindamos a técnica espontânea que nos conduz a camadas empoeiradas. Pelo fio invisível que perpassa a imaginação, podemos chegar a descobertas. Ou degustar o sabor da ficção.
Alfabeto da vida. Decompondo-o, formamos o texto cotidiano das experiências, das vivências lapidadas pelo gozo do existir ou arranhadas pelo desprazer do infortúnio. Palavras carregando sabedoria, palavras recheadas de enganos e desenganos, palavras vazias de encanto ou robustas de felicidade vão construindo o tecido da existência.
Pilotando cada letra - iscas para a imaginação -, vamos navegando pelo universo da quimera: do ver, do perceber, do sentir. E do brincar com a fantasia - campo fértil da escrita. E, aí, redesenhar os traços que nos marcaram.





O Menino e o Biscoito

Saí de carro por volta das 12 horas. Ao parar no semáforo se aproximou de mim um menino, 9-10 anos, estendeu sua mão e me pediu um trocado. Na outra mão ele segurava um pacote de biscoitos.
Respondi que não tinha e, antes que ele se afastasse, sorri e lhe pedi um biscoito.
Surpreso, mesmo desconfiado, o seu gesto foi estirar a mão para que eu tirasse o biscoito. Assim o fiz. Quando ele me viu colocar o biscoito na boca, como num passe de mágica seus olhos brilharam, seu semblante resplandeceu , abriu um sorriso encantador, livre, puro... A cor de sua pele tornou-se mais corada, sua postura ficou mais digna, virou gente! Por um instante não era um pedinte, era uma pessoa que experimentava, mesmo num simples gesto, a alegria de doar, de ser útil, direito que também lhe fora negado.
Ele pode sentir a ausência de medos e preconceitos que sempre experimenta ao se aproximar da maioria das pessoas. Naquele momento o que havia era a fragrância da atenção, do respeito e da generosidade. Assim, afastou-se radiante, acabara de ter um novo nascimento.

Os excluídos, que a sociedade fecha os olhos para não ver, por estarem no fundo do poço escuro têm os sentimentos de revolta e ódio fortalecidos potencializando a violência.
Certamente, por menor que seja, um gesto de atenção, de respeito e generosidade faz resplandecer a luz interior. Essa lembrança pode gerar a esperança de um mundo melhor.

Essa vivência revelou-me que além da alegria de se praticar atos generosos, grande é a alegria de proporcionarmos oportunidades e meios para que pessoas, mesmo desacreditadas, ignoradas possam também sentir a satisfação da prática da generosidade.

- Um sinal vermelho -Um menino - Uma luz -Um nascimento
- Um instante -Um biscoito - Uma esperança Um novo
- Um gesto -Um sorriso - Uma lembrança Mundo

Autor:PF- Oficina Literatura- Jardim Literário. Prof. Antonio Guinho

MANIAS - Zélia Monte Bezerra



Laurita era pirada. Festeira, sua alcunha. Vivia a ler almanaques sem pular uma linha, para desvendar festas em cidades e vilas principalmente as referentes às Santas. Residia em Vertentes, na mesma casa que as irmãs.
Certa vez subiu numa bicicleta. Pertences na cintura saiu a pedalar até Gravatá de Ibiapina para participar da festa da Santa. Na vila se surpreendeu. Primeira atitude para evitar larapiagem: guardar a bike num bar. Livre, viu a cidadela embandeirada a rir, parecia dizer: chegue, venha! A igreja um deslumbre, a frente cheia de lâmpadas. À tarde vai ficar bela acesa. Barracas de prendas, bebidas e acepipes. Eita, tem maçã caramelada...
As casas enfeitadas, saias e blusas abertas a esperar visitas.
Escutem, um badalar e uma salva. A banda de música passa.
A cidadela incha. Gente das fazendas e cidades vizinhas, gente da terra que vêm para reverenciar a Santa.
A massa engalanada a passear, a se espremer nas janelas. Calçadas apinhadas.
Ápice da festa: A Santa. Vejam a Santa, capricharam, está cheia de margaridas. Fiéis caminham a cantar. A seguir, missa campal. Finda, a banda encerra. Beleza de música sacra.
Chega a parte mundana, as barracas se enchem. Uns bebem. Uns amam laça-laça.
Ajuda para a igreja! Gritam. Distribuem as cartelas. A cabra de Mere vai ser bingada. Juju, de Edi, a felizarda.
Caminha a festa. Um disse me disse daqueles: Vê lá! É Marieta, filha da Creuza, está casada, ficasse aqui casava nada. Falada, amava ficar em linha reta. Hum! A filha de Adelaide, radialista. As demais, mestras. Bestas.
E, assim, a madrugada passava, a massa num ti ti ti cruel. Ah!, Quase esqueci de falar na festa dançante, tem clube na vila. O paquera grasso estava feliz, dançavam a valer.
Apareceu a claridade. Muita gente ainda a tagarelar na praça. À tarde, bater de talheres em Taquritinga, de preferência filé. Sai um filé à parmegiana!. Gritam. De repente um bate que bate, a carne amaciada.
Laurita, feliz da vida degustava, maluca para chegar em casa e explanar as atualidades.
Zélia Monte Bezerra

NADA A IMAGINAÇÃO - Maria José Klimsa


mariaklimsa@yahoo.com.br

Nada deveria impedir o voo da imaginação. Nem mesmo quando o bloqueio empurrou a sensibilidade e esta se assentou no banco dos vadios, sem destino.
Nada consegue igualar-se à velocidade com que a imaginação se arremessa no espaço infinito do pensamento e aí constrói, edifica ou se desmancha.
Nada, absolutamente nada, tem mais poder no terreno onde a imaginação se faz rainha. Nada cresce ou se reduz de forma tão rápida quanto a sua massa volátil. O mundo mágico a que ela conduz é capaz de criar monstros de força, edifícios de beleza, campos de felicidade. Consegue aniquilar capacidades, reduzir condições, anular valores.
Nada se compara ao desatino da imaginação, por alguém considerada “a louca da casa”. Ela é condição para que o artista exista e seja o gestador do seu mundo de fantasia. Escrever, por vezes, é um ato de loucura ou, antes, uma forma de evitá-la, um sair do seu nada.
Nada como a palavra que, esperneando no campo imaginativo, tudo arrasta. Ela vai sempre no lugar de algo que fica no emaranhado do inconsciente. E permanece na imaginação de algo que vai, qual teleférico de mensagens.
Maria José Klimsa

PEDACINHO DO CÉU - Paulo Fernandes



No Domingo, Paulo, Marta e seu filho Pedrinho, cinco aninhos, vão à igreja. Pedrinho e sua mãe sentam-se no banco da primeira fila. O pai vai cumprimentando os irmãos, dando abraços, muito sorridente e atencioso. Aliás, todos ali muito contentes.
O culto está para começar e antes que o Paulo chegue junto de sua família. Pedrinho diz:
- Mamãe, eu queria morar aqui!

Nisto, uma Irmã ao seu lado ao ouvir o que a criança falou Aleluia!
Ela vai até ao Pastor e diz o que ouviu, este pede a criança para vir até a frente.
O Pastor ao microfone pede a criança para dizer o que tinha falado para sua mãe!
- Eu disse à mamãe que queria morar aqui! Disse a criança.
-Aleluia e gloria a Deus enchem toda a igreja. Em seguida, o Pastor pergunta: Agora me diga Pedrinho: Por que você quer morar aqui? Silencio total!
- Porque aqui o papai é bom!Disse ele.
É isso mesmo, diz o Pastor, aqui todos ficam bons, esse é mais um milagre, é Deus operando! O Deus daqui é poderoso. Como vocês vêem, aqui é um
Pedacinho do Céu
Antes que alguns irmãos pudessem refletir sobre o real significado do “por que”, respondido pelo menino, ele pede para o coral cantar e todos cantam juntos. Assim - o que é muito comum - não há espaço para reflexão, nem necessidade disto, o Pastor já o faz por todos. Enfim estão “ungidos” pelo Espírito Santo!
- Após o coral terminar de cantar, o culto começa! E assim o rebanho segue em frente, de domingo a domingo rumo ao Céu- Aleluia , Gloria a Deus.

Paulo Fernandes

A TARTARUGA E O MENINO - Anamelia Poggi




Companheiro de infância, ele não cresceu, conservou-se na dele enquanto eu seguindo, a minha perdi. Ele carrega um pouco do tanto que brincamos à sua volta e representa um tempo que se foi. Impassível, não se intrometia, não mais do que estando ali, agüentando a barulheira das crianças. Assistia a tudo, aceitando o que acontecia à sua volta sem se pronunciar, mesmo quando lhe autorizávamos para tal, o envolvendo em alguma estória inventada no brincar. Uma peça de louça de beleza ingênua, não se sabe de que época, mas vem de onde existiam tartarugas gigantes com rédeas para o transporte de crianças. Aquela sobre o casco da tartaruga, nada vestia além de cachinhos na cabeça encarnando a meiguice infantil. Seu lugar de origem foi a casa dos meus avós, que eu tendo chegado atrasada na família, não alcancei. Mas o segundo lar foi no jardim da minha casa em uma fonte de azulejos azuis e brancos, de cuja parede a cabeça de um jacaré jorrava água para banhá-lo.
Os tempos passaram e vieram muitas mudanças que findaram por despejá-lo da moradia de mais de trinta anos. A troca foi por um apartamento à beira mar que poderia ser uma boa opção, se ao menos da vista pudesse usufruir. Mas só lhe restou o cantinho reservado no terraço procurando deixá-lo em meio a algumas plantas que não o deixassem tão fora do seu habitat. A vida lhe reservava mais uma mudança e as intempéries da vida lhe deixaram marcas que o levaram à restauração. Escolhida a Fundação Joaquim Nabuco, como o local de maior competência, lá foi avaliado com sucesso. O menino da tartaruga, que na verdade já seria um ancião, não fosse sua forma de levar a vida, foi apreciado demais pela sua originalidade. Cobiçado, foi desejado pela Instituição para compor o acervo de seu belo jardim. Instalou-se um impasse entre o que ele contém de história, carregando consigo a de três gerações, e a falta de lugar no universo familiar de hoje.
Desapego é tema atual, caminho difícil, porém necessário, sobretudo em meio à longa estrada por aonde vamos acumulando desnecessários que tanto pesam. Vem o desafio: ficar sem ou criar espaço para estar com. Dificuldades surgem quanto a objetos que parecem carregar em si um tanto de amor que compartilhou e absorveu do nosso vivido. Por isso, nos apegamos ao que eles contêm de nosso, do vivido por nós.
Assim estou eu e o menino na tartaruga com direito a escolha. Dar-lhe um lugar mais digno da sua beleza ou mantê-lo como guardião da nossa história?
Os dias se passaram sem que aceitasse a separação. Tudo conduzindo para a decisão final, pelo alto valor cobrado na restauração e tê-lo de volta com todo simbolismo nele contido.
Anamelia Poggi

QUERO MARIA- MOLE - Cléa Muller


Um dia Léo teve uma experiência muito estranha; feliz mesmo. Foi assim:

Ele tinha pouco menos de 7 anos.Foi por ocasião do aniversário de um amigo de escola, (” qual era mesmo o nome dele?Já faz tanto tempo...”)Em meio aos diversos brindes que vinham dentro das caixinhas de lembranças, como era costume oferecer à criançada, havia uma doce, o qual jamais tinha visto. Sua aparência era de uma borracha molinha, recoberta de um farelinho, parecendo coco ralado; macio ao apalpar.
No primeiro momento, desconfiado, pensou em uma lesma. Claro, nunca comera esse molusco, mas tudo fazia crer na semelhança.
O menino pensou: “Lógico que ninguém colocaria uma lesma nos confeitos de lembrança’
Muito desconfiado, pegou o doce, cheirou, apalpou. Fechou os olhos e deu uma lambidinha, de raspão No primeiro momento, a sensação foi prazerosa. Encorajou-se e com a pontinha dos dentes, mordeu um pequeno pedaço.
Que agradável surpresa! Aquela coisa esquisita era muito gostosa!
Então pediu mais uma e mais outra. Desse dia em diante, em todos os aniversários a que comparecia, ficava sempre na expectativa de encontrar Maria- Mole, como ficou sabendo ser o nome desta delícia.
No seu próprio aniversário, fez questão que o bolo, com sete velinhas plantadas, fosse feita desse doce, que passou a ser o seu preferido.
Atualmente, na meia idade, recorda-se desta sua descoberta. Os amigos da época ficaram no passado, porém a Maria -Mole está sempre presente na sua recordação.

Cléa Muller

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Um qualquer - Zélia Monte Bezerra


(Texto escrito sem a letra A)

Se espreguiçou, se vestiu e foi sem rumo mesmo, botou o pé no mundo.Percorreu becos e becos.Sol quente, os miolos derretendo. Fincou-se, comeu e continuou o caminho. Os pés doendo, chinelo velho, um ploct ploct medonho.
Pensou: meu Deus, perdi emprego, mulher... Resmungou, que sorte viu? Porém foi em frente, sempre refletindo.
De repente viu um Fuzuê, longe... Observou e quis ver de perto. Nem
precisou! Logo mulheres, jovens e meninos correndo em gritos: Olhem, é Ele, é Ele!
Tirou o boné, espiou suspeitoso, ninguém. Consultou seus botões: é comigo mesmo.
Lembrou-se que, menino vivente em Penedo, ouviu os tios discutindo:
Esse? Esse é bonito mesmo! Olvidou.
Com o correr do tempo reformou, como dizem, tomou corpo. Tornou-se um tipo de encher os olhos.
Brecou e esperou. Se viu num cerco. O convencer ouvido: "um circense muito conhecido e bonito, em vestes pobres, pernoitou pelos becos conhecendo os terrenos".
Rick, brasileiríssimo, nem se fez de rogado. Espigou-se, esqueceu desilusões, desemprego e contribuiu com o querer iludir-se dos pobres.
Sorriu e deixou-se ser comido com enlevo.