Companheiro de infância, ele não cresceu, conservou-se na dele enquanto eu seguindo, a minha perdi. Ele carrega um pouco do tanto que brincamos à sua volta e representa um tempo que se foi. Impassível, não se intrometia, não mais do que estando ali, agüentando a barulheira das crianças. Assistia a tudo, aceitando o que acontecia à sua volta sem se pronunciar, mesmo quando lhe autorizávamos para tal, o envolvendo em alguma estória inventada no brincar. Uma peça de louça de beleza ingênua, não se sabe de que época, mas vem de onde existiam tartarugas gigantes com rédeas para o transporte de crianças. Aquela sobre o casco da tartaruga, nada vestia além de cachinhos na cabeça encarnando a meiguice infantil. Seu lugar de origem foi a casa dos meus avós, que eu tendo chegado atrasada na família, não alcancei. Mas o segundo lar foi no jardim da minha casa em uma fonte de azulejos azuis e brancos, de cuja parede a cabeça de um jacaré jorrava água para banhá-lo.
Os tempos passaram e vieram muitas mudanças que findaram por despejá-lo da moradia de mais de trinta anos. A troca foi por um apartamento à beira mar que poderia ser uma boa opção, se ao menos da vista pudesse usufruir. Mas só lhe restou o cantinho reservado no terraço procurando deixá-lo em meio a algumas plantas que não o deixassem tão fora do seu habitat. A vida lhe reservava mais uma mudança e as intempéries da vida lhe deixaram marcas que o levaram à restauração. Escolhida a Fundação Joaquim Nabuco, como o local de maior competência, lá foi avaliado com sucesso. O menino da tartaruga, que na verdade já seria um ancião, não fosse sua forma de levar a vida, foi apreciado demais pela sua originalidade. Cobiçado, foi desejado pela Instituição para compor o acervo de seu belo jardim. Instalou-se um impasse entre o que ele contém de história, carregando consigo a de três gerações, e a falta de lugar no universo familiar de hoje.
Desapego é tema atual, caminho difícil, porém necessário, sobretudo em meio à longa estrada por aonde vamos acumulando desnecessários que tanto pesam. Vem o desafio: ficar sem ou criar espaço para estar com. Dificuldades surgem quanto a objetos que parecem carregar em si um tanto de amor que compartilhou e absorveu do nosso vivido. Por isso, nos apegamos ao que eles contêm de nosso, do vivido por nós.
Assim estou eu e o menino na tartaruga com direito a escolha. Dar-lhe um lugar mais digno da sua beleza ou mantê-lo como guardião da nossa história?
Os dias se passaram sem que aceitasse a separação. Tudo conduzindo para a decisão final, pelo alto valor cobrado na restauração e tê-lo de volta com todo simbolismo nele contido.
Anamelia Poggi
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