Veja como o Jardim Literário está vicejante.

Só falta você.

Florido e encantador, nasce o Jardim Literário, prometendo transformar-se numa praça, onde as borboletas virão se alimentar do néctar das flores. Na certeza de que os jardineiros irão sempre fertilizá-lo, a cada dia teremos botões desabrochando e muitas rosas farão este jardim ficar mais poético e inspirador.

Agradecemos a todos que deram início a esta jardinagem e convidamos você para fazer parte deste jardim.

Todas as quintas-feiras, das 8h às 10h, na Rua dos Prazeres, 248, Ilha do leite (próximo a Praça Miguel de Cervantes)

Contato: 81-9971.9354 /3222.0894

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Crie uma palavra e escreva um texto.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

RENOVAÇÃO - Djanira Silva



Um novo dia, completo, completo mesmo: manhã, tarde, noite, tudo assim, assim, mesmo, remendado com ausências e saudades. Quando o sol me virou as costas, fiquei meio lá, meio cá, partida ao meio, dividida em duas cores – o claro- escuro da madrugada, o claro-escuro de minha alma que se recusa a apagar as lâmpadas do passado.

Já, já, chegará o tempo de abrir as cortinas, cortar a fita, inaugurar outras manhãs. Peco a paciência. Não podendo controlar meu descontrole, fujo para o sono. Morro tranquila nesta morte temporária. Desembarco num mundo onde nada se inventa. Nada começa, nada termina. Nem anoitece, nem amanhece. Os dias se confundem com as noites e a realidade é apenas um piscar de olhos. Gosto de sentir o peso do pensamento: achar que vou e volto. Morrer? Quem sabe? Qualquer dia, qualquer hora os ponteiros cruzarão as pernas. Embarco nos enganos. Pego o tempo de surpresa, passando, parando, inventando pesadelos ou sonhos leves de uma noite de verão. Demoro a acordar. Adoro não ser dona de nada. Escondo-me num território desconhecido de rota perdida. Nem preciso de bússola, nem nada. Tenho apenas uma certeza, se a saudade me aperrear, embarcarei novamente.

Passo uma página, caio em outro dia. Ele não é diferente coisa nenhuma, tem sol, tem nuvens, vento e passagem grátis para sonhos de gente inteligente com o nariz pra frente. São golpes da imaginação.

Seguro-me nos detalhes. Mandam-me esperar: espero. Mandam-me sonhar: sonho. Mandam-me esquecer, esqueço nada, sou besta não. Mudanças, mudanças. E eu? Onde fico com a boca, as mãos, os pés e o corpo inteiro governado por uma cabeça de vento, trucidado por uma saudade crônica, massacrado pelas mazelas da vida? Como se já não bastassem as do Natal. Ai, ai, como é bom esperar o desconhecido.

De repente: zás! Num passe de mágica a varinha de condão estoura a bola, abre a cartola do mágico de Oz.

O grito de Ali Babá escancara o mundo: Abre-te Sésamo!!!


domingo, 6 de dezembro de 2009

ALFABETO - Maria JoséKlimsa


mariaklimsa@yahoo.com.br


Alfabeto de massa, brinquedo infantil. No jardim de infância a criança entra no universo dos símbolos e vai descobrindo a magia das palavras através da letra, que encabeça cada nome.
Macarrão de letrinhas, sopa cheirando a alfabeto, colheradas de fantasia, beijos de fumaça. Letras que deslizam no caldo são sonhos que percorrem o imaginário. Projetos que montam no dorso da inocência. No papel, o desenho da letra. Na mente, o registro das significações, o corte e o recorte do que simboliza cada traço. Palavras vestidas de riqueza jardinam a mente infantil. Escrita e papel sintonizam, apontam caminhos. Partida para tecer o texto, voo para a comunicação, rasgo para a vida.
Outros jardins vão florindo pela existência. Nem sempre de viçosas flores e sedutor perfume.
Um jardim literário nos leva de volta àquele primeiro. E aí voltamos a aprender, brincando de “gente pequena”. Juntamos às letras tiras de invenção. E, no divertimento da livre associação, brindamos a técnica espontânea que nos conduz a camadas empoeiradas. Pelo fio invisível que perpassa a imaginação, podemos chegar a descobertas. Ou degustar o sabor da ficção.
Alfabeto da vida. Decompondo-o, formamos o texto cotidiano das experiências, das vivências lapidadas pelo gozo do existir ou arranhadas pelo desprazer do infortúnio. Palavras carregando sabedoria, palavras recheadas de enganos e desenganos, palavras vazias de encanto ou robustas de felicidade vão construindo o tecido da existência.
Pilotando cada letra - iscas para a imaginação -, vamos navegando pelo universo da quimera: do ver, do perceber, do sentir. E do brincar com a fantasia - campo fértil da escrita. E, aí, redesenhar os traços que nos marcaram.





O Menino e o Biscoito

Saí de carro por volta das 12 horas. Ao parar no semáforo se aproximou de mim um menino, 9-10 anos, estendeu sua mão e me pediu um trocado. Na outra mão ele segurava um pacote de biscoitos.
Respondi que não tinha e, antes que ele se afastasse, sorri e lhe pedi um biscoito.
Surpreso, mesmo desconfiado, o seu gesto foi estirar a mão para que eu tirasse o biscoito. Assim o fiz. Quando ele me viu colocar o biscoito na boca, como num passe de mágica seus olhos brilharam, seu semblante resplandeceu , abriu um sorriso encantador, livre, puro... A cor de sua pele tornou-se mais corada, sua postura ficou mais digna, virou gente! Por um instante não era um pedinte, era uma pessoa que experimentava, mesmo num simples gesto, a alegria de doar, de ser útil, direito que também lhe fora negado.
Ele pode sentir a ausência de medos e preconceitos que sempre experimenta ao se aproximar da maioria das pessoas. Naquele momento o que havia era a fragrância da atenção, do respeito e da generosidade. Assim, afastou-se radiante, acabara de ter um novo nascimento.

Os excluídos, que a sociedade fecha os olhos para não ver, por estarem no fundo do poço escuro têm os sentimentos de revolta e ódio fortalecidos potencializando a violência.
Certamente, por menor que seja, um gesto de atenção, de respeito e generosidade faz resplandecer a luz interior. Essa lembrança pode gerar a esperança de um mundo melhor.

Essa vivência revelou-me que além da alegria de se praticar atos generosos, grande é a alegria de proporcionarmos oportunidades e meios para que pessoas, mesmo desacreditadas, ignoradas possam também sentir a satisfação da prática da generosidade.

- Um sinal vermelho -Um menino - Uma luz -Um nascimento
- Um instante -Um biscoito - Uma esperança Um novo
- Um gesto -Um sorriso - Uma lembrança Mundo

Autor:PF- Oficina Literatura- Jardim Literário. Prof. Antonio Guinho

MANIAS - Zélia Monte Bezerra



Laurita era pirada. Festeira, sua alcunha. Vivia a ler almanaques sem pular uma linha, para desvendar festas em cidades e vilas principalmente as referentes às Santas. Residia em Vertentes, na mesma casa que as irmãs.
Certa vez subiu numa bicicleta. Pertences na cintura saiu a pedalar até Gravatá de Ibiapina para participar da festa da Santa. Na vila se surpreendeu. Primeira atitude para evitar larapiagem: guardar a bike num bar. Livre, viu a cidadela embandeirada a rir, parecia dizer: chegue, venha! A igreja um deslumbre, a frente cheia de lâmpadas. À tarde vai ficar bela acesa. Barracas de prendas, bebidas e acepipes. Eita, tem maçã caramelada...
As casas enfeitadas, saias e blusas abertas a esperar visitas.
Escutem, um badalar e uma salva. A banda de música passa.
A cidadela incha. Gente das fazendas e cidades vizinhas, gente da terra que vêm para reverenciar a Santa.
A massa engalanada a passear, a se espremer nas janelas. Calçadas apinhadas.
Ápice da festa: A Santa. Vejam a Santa, capricharam, está cheia de margaridas. Fiéis caminham a cantar. A seguir, missa campal. Finda, a banda encerra. Beleza de música sacra.
Chega a parte mundana, as barracas se enchem. Uns bebem. Uns amam laça-laça.
Ajuda para a igreja! Gritam. Distribuem as cartelas. A cabra de Mere vai ser bingada. Juju, de Edi, a felizarda.
Caminha a festa. Um disse me disse daqueles: Vê lá! É Marieta, filha da Creuza, está casada, ficasse aqui casava nada. Falada, amava ficar em linha reta. Hum! A filha de Adelaide, radialista. As demais, mestras. Bestas.
E, assim, a madrugada passava, a massa num ti ti ti cruel. Ah!, Quase esqueci de falar na festa dançante, tem clube na vila. O paquera grasso estava feliz, dançavam a valer.
Apareceu a claridade. Muita gente ainda a tagarelar na praça. À tarde, bater de talheres em Taquritinga, de preferência filé. Sai um filé à parmegiana!. Gritam. De repente um bate que bate, a carne amaciada.
Laurita, feliz da vida degustava, maluca para chegar em casa e explanar as atualidades.
Zélia Monte Bezerra

NADA A IMAGINAÇÃO - Maria José Klimsa


mariaklimsa@yahoo.com.br

Nada deveria impedir o voo da imaginação. Nem mesmo quando o bloqueio empurrou a sensibilidade e esta se assentou no banco dos vadios, sem destino.
Nada consegue igualar-se à velocidade com que a imaginação se arremessa no espaço infinito do pensamento e aí constrói, edifica ou se desmancha.
Nada, absolutamente nada, tem mais poder no terreno onde a imaginação se faz rainha. Nada cresce ou se reduz de forma tão rápida quanto a sua massa volátil. O mundo mágico a que ela conduz é capaz de criar monstros de força, edifícios de beleza, campos de felicidade. Consegue aniquilar capacidades, reduzir condições, anular valores.
Nada se compara ao desatino da imaginação, por alguém considerada “a louca da casa”. Ela é condição para que o artista exista e seja o gestador do seu mundo de fantasia. Escrever, por vezes, é um ato de loucura ou, antes, uma forma de evitá-la, um sair do seu nada.
Nada como a palavra que, esperneando no campo imaginativo, tudo arrasta. Ela vai sempre no lugar de algo que fica no emaranhado do inconsciente. E permanece na imaginação de algo que vai, qual teleférico de mensagens.
Maria José Klimsa

PEDACINHO DO CÉU - Paulo Fernandes



No Domingo, Paulo, Marta e seu filho Pedrinho, cinco aninhos, vão à igreja. Pedrinho e sua mãe sentam-se no banco da primeira fila. O pai vai cumprimentando os irmãos, dando abraços, muito sorridente e atencioso. Aliás, todos ali muito contentes.
O culto está para começar e antes que o Paulo chegue junto de sua família. Pedrinho diz:
- Mamãe, eu queria morar aqui!

Nisto, uma Irmã ao seu lado ao ouvir o que a criança falou Aleluia!
Ela vai até ao Pastor e diz o que ouviu, este pede a criança para vir até a frente.
O Pastor ao microfone pede a criança para dizer o que tinha falado para sua mãe!
- Eu disse à mamãe que queria morar aqui! Disse a criança.
-Aleluia e gloria a Deus enchem toda a igreja. Em seguida, o Pastor pergunta: Agora me diga Pedrinho: Por que você quer morar aqui? Silencio total!
- Porque aqui o papai é bom!Disse ele.
É isso mesmo, diz o Pastor, aqui todos ficam bons, esse é mais um milagre, é Deus operando! O Deus daqui é poderoso. Como vocês vêem, aqui é um
Pedacinho do Céu
Antes que alguns irmãos pudessem refletir sobre o real significado do “por que”, respondido pelo menino, ele pede para o coral cantar e todos cantam juntos. Assim - o que é muito comum - não há espaço para reflexão, nem necessidade disto, o Pastor já o faz por todos. Enfim estão “ungidos” pelo Espírito Santo!
- Após o coral terminar de cantar, o culto começa! E assim o rebanho segue em frente, de domingo a domingo rumo ao Céu- Aleluia , Gloria a Deus.

Paulo Fernandes

A TARTARUGA E O MENINO - Anamelia Poggi




Companheiro de infância, ele não cresceu, conservou-se na dele enquanto eu seguindo, a minha perdi. Ele carrega um pouco do tanto que brincamos à sua volta e representa um tempo que se foi. Impassível, não se intrometia, não mais do que estando ali, agüentando a barulheira das crianças. Assistia a tudo, aceitando o que acontecia à sua volta sem se pronunciar, mesmo quando lhe autorizávamos para tal, o envolvendo em alguma estória inventada no brincar. Uma peça de louça de beleza ingênua, não se sabe de que época, mas vem de onde existiam tartarugas gigantes com rédeas para o transporte de crianças. Aquela sobre o casco da tartaruga, nada vestia além de cachinhos na cabeça encarnando a meiguice infantil. Seu lugar de origem foi a casa dos meus avós, que eu tendo chegado atrasada na família, não alcancei. Mas o segundo lar foi no jardim da minha casa em uma fonte de azulejos azuis e brancos, de cuja parede a cabeça de um jacaré jorrava água para banhá-lo.
Os tempos passaram e vieram muitas mudanças que findaram por despejá-lo da moradia de mais de trinta anos. A troca foi por um apartamento à beira mar que poderia ser uma boa opção, se ao menos da vista pudesse usufruir. Mas só lhe restou o cantinho reservado no terraço procurando deixá-lo em meio a algumas plantas que não o deixassem tão fora do seu habitat. A vida lhe reservava mais uma mudança e as intempéries da vida lhe deixaram marcas que o levaram à restauração. Escolhida a Fundação Joaquim Nabuco, como o local de maior competência, lá foi avaliado com sucesso. O menino da tartaruga, que na verdade já seria um ancião, não fosse sua forma de levar a vida, foi apreciado demais pela sua originalidade. Cobiçado, foi desejado pela Instituição para compor o acervo de seu belo jardim. Instalou-se um impasse entre o que ele contém de história, carregando consigo a de três gerações, e a falta de lugar no universo familiar de hoje.
Desapego é tema atual, caminho difícil, porém necessário, sobretudo em meio à longa estrada por aonde vamos acumulando desnecessários que tanto pesam. Vem o desafio: ficar sem ou criar espaço para estar com. Dificuldades surgem quanto a objetos que parecem carregar em si um tanto de amor que compartilhou e absorveu do nosso vivido. Por isso, nos apegamos ao que eles contêm de nosso, do vivido por nós.
Assim estou eu e o menino na tartaruga com direito a escolha. Dar-lhe um lugar mais digno da sua beleza ou mantê-lo como guardião da nossa história?
Os dias se passaram sem que aceitasse a separação. Tudo conduzindo para a decisão final, pelo alto valor cobrado na restauração e tê-lo de volta com todo simbolismo nele contido.
Anamelia Poggi

QUERO MARIA- MOLE - Cléa Muller


Um dia Léo teve uma experiência muito estranha; feliz mesmo. Foi assim:

Ele tinha pouco menos de 7 anos.Foi por ocasião do aniversário de um amigo de escola, (” qual era mesmo o nome dele?Já faz tanto tempo...”)Em meio aos diversos brindes que vinham dentro das caixinhas de lembranças, como era costume oferecer à criançada, havia uma doce, o qual jamais tinha visto. Sua aparência era de uma borracha molinha, recoberta de um farelinho, parecendo coco ralado; macio ao apalpar.
No primeiro momento, desconfiado, pensou em uma lesma. Claro, nunca comera esse molusco, mas tudo fazia crer na semelhança.
O menino pensou: “Lógico que ninguém colocaria uma lesma nos confeitos de lembrança’
Muito desconfiado, pegou o doce, cheirou, apalpou. Fechou os olhos e deu uma lambidinha, de raspão No primeiro momento, a sensação foi prazerosa. Encorajou-se e com a pontinha dos dentes, mordeu um pequeno pedaço.
Que agradável surpresa! Aquela coisa esquisita era muito gostosa!
Então pediu mais uma e mais outra. Desse dia em diante, em todos os aniversários a que comparecia, ficava sempre na expectativa de encontrar Maria- Mole, como ficou sabendo ser o nome desta delícia.
No seu próprio aniversário, fez questão que o bolo, com sete velinhas plantadas, fosse feita desse doce, que passou a ser o seu preferido.
Atualmente, na meia idade, recorda-se desta sua descoberta. Os amigos da época ficaram no passado, porém a Maria -Mole está sempre presente na sua recordação.

Cléa Muller

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Um qualquer - Zélia Monte Bezerra


(Texto escrito sem a letra A)

Se espreguiçou, se vestiu e foi sem rumo mesmo, botou o pé no mundo.Percorreu becos e becos.Sol quente, os miolos derretendo. Fincou-se, comeu e continuou o caminho. Os pés doendo, chinelo velho, um ploct ploct medonho.
Pensou: meu Deus, perdi emprego, mulher... Resmungou, que sorte viu? Porém foi em frente, sempre refletindo.
De repente viu um Fuzuê, longe... Observou e quis ver de perto. Nem
precisou! Logo mulheres, jovens e meninos correndo em gritos: Olhem, é Ele, é Ele!
Tirou o boné, espiou suspeitoso, ninguém. Consultou seus botões: é comigo mesmo.
Lembrou-se que, menino vivente em Penedo, ouviu os tios discutindo:
Esse? Esse é bonito mesmo! Olvidou.
Com o correr do tempo reformou, como dizem, tomou corpo. Tornou-se um tipo de encher os olhos.
Brecou e esperou. Se viu num cerco. O convencer ouvido: "um circense muito conhecido e bonito, em vestes pobres, pernoitou pelos becos conhecendo os terrenos".
Rick, brasileiríssimo, nem se fez de rogado. Espigou-se, esqueceu desilusões, desemprego e contribuiu com o querer iludir-se dos pobres.
Sorriu e deixou-se ser comido com enlevo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

DEMÊNCIA - Djanira Silva



(Brincando com a letra D)

Deixo para trás o que penso e o que resolvo não fazer. Assumo o que os ajuizados e preocupados chamam de demência. Isto mesmo, demência. Eu e ela nos entendemos e nos damos bem. Escolhemos sempre o melhor - não fazer nada.
Devolvo ao tempo as ordens que recebo sem pensar, sem refletir. Cumpri-las, já não me interessa. O não fazer, é ótimo. Não tem conseqüências, não cria problemas, ninguém reclama que está mal feito. É, não restam dúvidas, a melhor coisa do mundo.
Deveres e obrigações, horários determinados, tarefas a realizar cansam e gastam as energias.
Durmo com preguiça. Desperto com ela. Deixo-a à vontade. Preguiça é quase gente.
Despacho deveres e obrigações para o espaço ponho as pernas para cima, suspiro, me deito e me arrepio toda da alegria que sinto de poder dispor de mim mesma.
Será demência mesmo, ou apenas um vício? Bem seja lá o que for não prejudica ninguém. Sonho, acordo, ando na chuva, e volto para casa se quiser. Ninguém me espera e não estou nem aí para este vazio. Se ele continuar, melhor, mais tempo livre para o não fazer e parar de pensar no que fazer.
Detenho-me diante de mim com minha nova face. Estranha? Que importa. Demência? Que seja. Ela segura os impulsos como a bengala segura os passos. Se cair, caí. Então, concluo que, se estivesse fazendo alguma coisa, cairia na certa.
Divirto-me com esta demência precoce. Precoce? Sei lá. Se alguém gostar pode imitar não será plágio.
Durmo quando quero. Desperto sem querer. Isto é ótimo. Tenho duas vontades uma manda a outra desmanda. Uma eu conheço a outra me conhece. Nunca poderei escolher. Fico assim mesmo. Se me der bem, muito bem, se me der mal, muito mal.
Detenho-me diante desse novo mundo que cresce a olhos vistos. Estou muito bem assim. Tenho medo de botar olhado em mim mesma.
Decidi, por unanimidade, viver uma vida desocupacional. Esta opção é um privilégio porque as pessoas sempre têm o que fazer e às vezes nem fazem bem feito. Na verdade, gosto de escrever, ofício que considero igual a não fazer nada, só existirá se existir leitor. Meus leitores estão esgotados, não, não são os livros, são os leitores mesmo. O ato de escrever não é obrigação é imposição. Imposição daquele outro eu que não conheço, aquele que me acorda todas as manhãs e à noite me faz adormecer cheia de idéias, idéias das quais na manhã seguinte já nem lembro mais.
Desvio-me dos labirintos que os pensamentos desenham para me distrair. Não adianta, continuo assim, assim mesmo, tão útil como uma coisa que já foi. Chega de tanta obrigação. Passei, quase meio século de vida pendurada nas pernas do relógio, rolando pra lá e pra cá, vasculhando as horas, procurando espaço onde coubessem todos os meus afazeres. Menino pra mamar, pra comer, para estudar, marido procurador, isto é, procurador de encrencas e de outras coisas mais, casa cheia de móveis inúteis, estatuetas sem graça, peças raras que de vez em quando se espatifavam no chão virando cacos. Pra que tudo isto? Não levarei nada comigo. Muito tarde descobri que mortalha não tem bolso e caixão não tem gaveta. Estou cansada de ver sempre as mesmas coisas. Mal enxergo onde piso, mal escuto o que os outros dizem, e sinto as dores da velhice zombando da pressa dos meus quinze anos.
Assinei minha carta de alforria. Vida livre, vida nova.os. Já não tenho deveres nem obrigações. Cozinhar, lavar, passar, um sem número de tarefas, tarefas que fui passando adiante, pois encontrei alguém mais besta do que eu.
Demente, nada, estou mesmo é sabida Livrei-me das pernas do relógio e passei a cuidar das minhas são elas que me ajudam a não fazer um nada muito bem feito.

Djanira

domingo, 25 de outubro de 2009

Manteigueira & Saboneteira - Paulo Fernandes






Era comum no escritório os funcionários tomarem um cafezinho com bolacha e manteiga.
Um dia, verificamos que a manteigueira havia sumido, então, Dr. Silva, chefe do setor, me pediu para comprar outra. Fui ao mercado próximo mas encontrei manteigueiras meio cara e, como não dispunha de dinheiro suficiente,.vi uma saboneteira e pensei – vai servir. Comprei-a e também um tablete de manteiga. Retornei ao escritório, porém os colegas já haviam saído. Coloquei a manteiga na saboneteira e deixei junto do pote de bolachas, no local reservado ao cafezinho que era na frente do meu birô.
Na manha seguinte, Sandro foi o primeiro a vir tomar café . Pegou uma bolacha e perguntou:
- Cadê a manteiga? ,
- Tá aí, respondi.
- Aí onde?
- Na sua frente!
- Não estou vendo! O que tem aqui é uma saboneteira!
- Isso mesmo, abra e você vai ver!
- Desconfiado ele abriu... Surpreso:
- É mesmo! ... Risos!.
O mesmo aconteceu com os outros colegas.
Foi um dia bastante divertido! Afinal, não é todo dia que uma saboneteira vira manteigueira!
No dia seguinte: Dr.Fernando, chefe do Distrito, acabara de chegar, indo direto ao banheiro.e, ao abrir a saboneteira, não acreditou no que viu e gritou:
- Tão querendo me sacanear! Chamou Ana, a secretária, lhe mostrou a saboneteira e disse: É brincadeira? Quero saber quem fez isso, Agora!
Dona Ana telefona para a responsável pela limpeza , fica sabendo que a saboneteira foi encontrada na copa e levada para o benheiro pela senhora da limpeza que pensava que era do banheiro do Dr Fernando. Ana entra em contato com a copa e lá é informada que a saboneteira estava na sala do Dr Silva. Ela faz ciencia dos fatos ao Chefe. e ele manda chamar Dr Silva, chefe do setor.. :
- Quando o Dr. Silva chega, de cara já ver a saboneteira em cima da mesa de reunião- O chefe apontando para ela se explique!
- Sim, disse Dr. Silva e foi logo adiantando foi coisa do Paulo , colega lá da Sala !
Por favor, Dona Ana, chame o Paulo..
- Quando recebi o chamado, imaginei: deve ser bronca , mas não fazia idéia do que era. -
Sente-se por favor , disse me o chefe e apontando para saboneteira , me pergunta: sabe quem foi o responsável?
-De certa forma, foi Dr. Silva
-Eu? Essa não! Apenas lhe pedi para comprar uma manteigueira. A “brilhante” idéia foi sua!
- Mas o senhor aprovou e até achou legal!
- Isso é verdade mas se eu adivinhasse, tinha preferido ter comido bolachas sem manteiga, no seco!
Dr. Fernando entendendo tudo, relaxou. Ficou feito manteiga derretida. Risos... Depois disse:
Apesar de toda confusão , não posso deixar de reconhecer que foi um ideia, inovadora , livre e ousada, é do que precisamos,mas ainda vivemos sobre o dominio das formas e nomes, não estamos preparados para essa liberdade de visão! Tapinhas nas costas.,- Já podem ir. Risos!
À tarde, recebemos outra manteigueira, atestando de que tudo voltou ao “ normal”, ou seja, ao velho paradigama...
Ufa! Achei que aquele episódio havia se encerrado por ali... mas eu estava enganado. Após o almoço, fui ao banheiro e lá ouvi , devia ser o pessoa da limpeza.Fiquei preocupado , mas ao mesmo tempo segurei a garlhada a conversao foi a seguinte:
- Rapaz, soubesse o que houve de manhã?
- Foi um correcorre danado! colocaram uma bomba no banheiro do Chefe. Iimagina:. dentro de uma saboneteira, pode?
- O quê? Virgem Maria! Deve ter sido um terrorista!
- Acho que sim!
– nossa! Ninguem tá livre, né?
Ainda hoje, guardo a saboneteira , como lembrança de inicio da mudança de paradgma: nos libertar do dominio da formas e nomes.

Paulo Fernandes

Cantigas de Roda - Cléa Muller


Alguém já disse que o ato criativo é como um parto; não tem hora para acontecer. O bebê sente quando está pronto para vir ao mundo; mas não sabe a hora exata. O médico deve ficar atento para ampará-lo, quando essa hora chegar.

Assim também uma história não escolhe a hora mais conveniente; ela simplesmente surge. O escritor é como o obstetra: pronto para o ato criativo.

Na noite passada quase não dormi. Ao colocar a cabeça no travesseiro, vieram recordações da infância. Saudades do tempo das cantigas de roda, misturadas com as histórias de minha vida.
Fechei os olhos. Sentindo-me um tanto ridícula, cantarolei, apenas num murmúrio:

“Senhora dona Cândida
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Quero ver a sua graça.”

Em pensamento me encontrava acocorada, no centro da roda, mãos tapando os olhos, como no tempo em que brincava.
Aos poucos fui recordando outras cantorias infantis:

“O cravo brigou com a rosa
De baixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despetalada”

“Teresinha de Jesus
Numa queda foi ao chão
Acudiram três cavaleiros
Todos três de chapéu na mâo”

Muitas e muitas outras povoaram meu sonhar acordada. Senti que todas retratavam minha infância, meus amores e o caminho que fui escolhendo viver.

Já estava amanhecendo quando fechei os olhos para dormir. Senti-os úmidos de lágrimas. Saudade e alegria pelos passos que me trouxeram até aqui.

ALFABETO - Ivoneide Anacleto Porto


A
Árvore - amor.
No abecedário distribuído no Jardim Literário na letra A escrevi árvore e amor. Logo verifiquei a congruência entre os dois vocábulos. Árvore fruto do amor entre a semente e a terra que num casamento amoroso gera a árvore frondosa e plena de flores e frutos.
B
Beleza.
Quando falo em beleza, faço-o, sobretudo pensando na beleza interior. Daquela beleza que está na delicadeza dos gestos transformadora da essência. Da genuína beleza.
C
Comunhão.
Comunhão de pensamentos, conceitos, vidas, ideais. A verdadeira comunhão. Comunhão que leva a uma integração perfeita entre as pessoas, sem duvida, entre as pessoas que comungam de um compartilhamento vital.
D
Dádiva.
A dádiva é o gesto mais nobre do coração. É a doação que se pratica sem pensamento de retorno. Daí a sua nobreza.
E
Esfuziante.
Gosto das pessoas esfuziantes. Conheço algumas assim. Trazem alegria para nossas vidas, amainam nossas tristezas, derramam satisfação, júbilo, contentamento e exultação por onde quer que passem. Bendigo-as.
F
Felicidade.
Felicidade é um estado de espírito. No mundo hodierno onde tudo parece contribuir para a preocupação, o medo, a angústia, há que se buscar a felicidade nas coisas simples da vida: um jardim cheio de flores; em pássaros multicores nos galhos das árvores; na mansidão do mar que nos pacifica; no sorriso das crianças e disso tudo usufruirmos. Assim creio eu.
G
Generosa.
Admiro profundamente a virtude da generosidade. Talvez porque haja convivido com u’a pessoa a mais generosa das tantas que conheci. A minha mãe era de uma generosidade impar. Sem arroubos. Sem astardalhaços. Simplesmente generosa. Não distinguia ninguém. Sempre disponível a ajudar, a doar-se fosse quem a quem fosse. Por isso deve estar hoje, curtindo no céu as recompensas de seu despojamento.
H
Habilidade.
Ah! O dom da habilidade. Habilidade das mãos cuidando, embelezando tudo o que toca. É um arranjo de flores aqui, uma tela pintada ali, um maravilhoso bordado acolá. Entretanto a habilidade maior é a da convivência com as pessoas. Aquela que passeia entre todos sem ferir e sem deixar-se ferir. Simplesmente abrandando, serenando um desentendimento iminente e concorrendo assim para a paz de todos.
I
Irmandade.
Há tantas formas de irmandade! Quero referir-me, no entanto, à fraternidade íntima dos irmãos. Daqueles, cujos ouvidos estão sempre disponíveis a ouvir as mágoas, as dores, as confidências e também falar palavras de compreensão, de apoio, de cumplicidade. Felizes dos que, como eu, usufruem de irmãos com todas estas características.
J
Jardim.
Entre os belos recantos de uma residência, de um bairro, de uma cidade, há que se ressaltar os que são reservados aos jardins. Jardins com especimens de flores as mais variadas, mais coloridas, mais lindas, disputando a beleza multicor, a fragrância que emprestam a aqueles locais. L
Luz.
Quando escrevi luz na letra L pensei não só na luz que nos dá claridade, nos ilumina, mas, de uma luz interior que nos contagia, nos contamina, nos induz a atos generosos, à grandeza da alma, à sensibilidade, à necessidade de nossos irmãos desafortunados, da luz que realmente conta.
M
Maternidade.
A palavra maternidade, de saída, me comove. De todas as faculdades que Deus incumbiu ao homem de realizar a maternidade é sem dúvida, a mais bela de todas as demais. Conceber um filho aconchegá-lo no seu corpo, dar-lhe a luz, criá-lo, educá-lo é uma tarefa grandiosa, sublime. E, tudo fazer para que, um dia, volte para a casa do Pai, é uma incumbência divina.
N
Navio.
Só olhar um navio leva-me a vislumbrar por onde ele pode passar e levar-me a lugares nunca dantes conhecidos, com suas peculiaridades, seu povo com seus hábitos e costumes sempre diferentes dos nossos, suas histórias de grandeza inusitadas ou não, mas sempre enriquecedoras. O
Ontem.
Não gosto do ontem. O ontem é passado. Bom ou ruim, já passou. Se bom, serve para incorporar algo no presente com vistas ao futuro e tudo bem. Do contrário, é melhor esquecê-lo. Não merece ser lembrado.
P
Palavra.
A palavra quando usada positivamente é a maneira mais sublime, mais inexcedível de expressar um sentimento que alimenta e acalenta a alma. Faz-nos bem a vida. Exalta a beleza a amizade, o amor. A mim, ela me toca profundamente, sobretudo a palavra autêntica, legítima, gernuina.
Q
Querida.
E a palavra síntese do sentimento do bem querer. Deste sentimento de que todos somos carentes quando nos falta e enormemente ricos quando o temos e sentimos. Queridas deveriam ser a família primeira de onde nascemos, a família maior mais ampla dos amigos e uma predisposição para assim sentirmo-nos com todos que nos cercam ou venham a aproximar-se de nós.
R
Rosa.
Para aquilatarem o que penso da Rosa, quero só dizer que o escolhi-o e dei-o a uma de minhas filhas.
S
Sermão.
Há o “sermão” tedioso da reclamação constante, sempre igual, que não corrige porque aborrece, antes de tudo. Mas quero falar do sermão que é a explicação da palavra de Deus, transcrita no Evangelho e interpretada pelo celebrante nas missas, sobretudo, dominicais. Quando bem feito é esclarecedor e alimentador do coração, da alma, da espiritualidade.
T
Travessia.
Travessia de um lugar para outro. De um continente para outro. Mas penso agora na travessia de um estado de tristeza para um de alegria, de incredulidade para um de certeza, de um estado de pecado para um estado de graça, de bem aventurança.
U
União.
União de colegas, amigos, irmãos é um sentimento de aconchego que alegra, apazigua e é pleno de felicidade.
V
Vitória.
É a recompensa, o retorno de um trabalho realizado, de uma conquista obtida. A vitória favorece um estado de euforia, a certeza de uma justiça cumprida. É gratificante.
X
Xereta.
Tomei conhecimento deste vocábulo há pouco tempo. O xereta é adulador. Não merece confiança porque é bajulador. É também uma pessoa que leva e traz e assim procede conforme seus interesses pessoais. Desprezível.
Z
Zen.
Meditação budista nascida no Oriente que vem se difundindo cada vez mais pelo Ocidente. É uma meditação intuitiva, isto é, que objetiva a compreensão da realidade e de nós próprios. São momentos de silêncio que favorecem esse conhecimento e facultam uma mudança de comportamento.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

PIANO - Cléa Muller


Idade de Cecília: 10 anos.
Por essa época há uma grande mudança em sua vida. Seus pais a colocam em um colégio novo. Por ser muito distante de sua residência, resolvem que ela ficará em tempo integral na escola, onde fará os deveres (que seriam de casa), aprenderá bordado, fará educação física e rezar, pois as educadoras são freiras.
No início é difícil a adaptação. Aos poucos vai entrando no ritmo do lugar, dos mestres e colegas.
Um certo dia, passando por uma ala da escola na qual ainda não havia estado, percebe um som que nunca tinha ouvido. Anda de um lado para outro do corredor, até descobrir de onde vem aquela melodia .Imagina-se transportada nas asas de anjos! Não titubeia em abrir a porta, que, na sua cabecinha inocente, é a porta do céu.
“ Só pode ser o paraíso e anjos devem morar aí. Preciso conhecê-los”
O clic do trinco a assusta um pouco; ainda mais que ela sabe que está andando por lugares proibidos para as alunas.
Em vez de anjo depara-se com uma mocinha muito simpática, sentada em um banco e dedilha um instrumento. O som para no momento da intromissão. Cecília está prestes a dar meia volta e sair correndo, com medo da carraspana, que com certeza irá levar. Os olhos ficam marejados e ela empalidece.
Acontece que a doce mocinha, que se chama Luiza, não é santa; também não é diabo. Ao perceber que tem uma ouvinte curiosa, convida-a, gentilmente, a entrar.
Um misto de vergonha e alegria a deixa inerte, sem saber que atitude tomar. A moça, que na verdade é professora de música, incita Cecília a sentar-se no banco, ao seu lado. Encabulada, aproxima-se devagar, ficando frente à frente com um instrumento lindo e tão diferente que a deixa deslumbrada.
“Parece uma comprida dentadura com dentes brancos e pretos.” Pensa.
Não cabe em si de contente quando Luiza explica: -Nós estamos sentadas diante de um instrumento musical chamado piano e aqui, são as teclas ;indicando “ os dentes” pretos e brancos.-Ao serem tocadas, de dentro do piano saem os sons.
Delicadamente a professora coloca as mãos da menina sobre o teclado. Cecília faz leve pressão sobre as teclas. Os olhos brilharam de satisfação. Exclama, encantada por sua façanha: -E não é que consegui? Olhando a professora diz, contente: -Sai som !
Mais contente fica quando inicia a ter aulas de verdade. O teclado passa a ser continuação dos seus braços e dedos ; ela se transporta a um mundo de sonho.Lindo e suave.As melodias que vibram através deles mexem com a sensibilidade de todos o que a ouvem..

sábado, 3 de outubro de 2009

LIBERDADE - Iza Varejão



Liberdade de amar, de sorrir, de ir e voltar, de viver, de caminhar, liberdade de tudo.
Respeitando a liberdade do outro, você será:


Livre
Independente
Belo
Encantador
Real
Dinâmico
Amoroso
Divino
Espetacular

REFLEXÕES - Djanira Silva


A letra R escolhi
Neste meu prazer diário
E este texto escrevi
Para o Jardim Literário

REFLEXÕES

Reajo diante de mudanças.

Rever todos os dias os mesmo lugares, repetir as mesmas coisas, tornou-se um hábito como respirar, ver, ouvir ou falar, tudo na verdade, uma arrumação sem sentido.

Rotina quebrada deixa-me confusa.

Retorno do sono. Olho ao redor. Reluto contra um mundo fixo, um mundo que não sai do lugar, que não se renova que transforma o homem num zumbi.

Retomo as rédeas das indecisões e vejo que minha maior reação é contra o que sou. Na verdade, não sei o que quero, sequer acredito no que penso.

Revejo o mundo. Procuro, através das coisas, mistérios que nunca soube explicar.

Refreio sentimento, reduzo a velocidade das lembranças.

Recuso-me a embarcar na arrumação dos dias. Uma realidade arrumada se interpõe entre querer e fazer, sonhar e ver a verdade de cada um, destorcendo imagens construídas na indecisão.

Renasço para pensar que sou feliz. Resguardo tudo quanto pensei, amei, acreditei. De ser criança não tive culpa se cresci foi contra a vontade. Desejar ser gente grande, desejei e hoje amargo os enganos de um desejo perdido.

Releio, página por página, a minha história. Nada de novo. Nada de velho. Tudo sem seqüência, sem coerência.

Resignada caminho por entre pedras que me esmagam os pés e se jogam contra meu rosto apagando o meu sorriso.

Rio e choro e sigo o rio que lava os pés das bananeiras enchendo a várzea das passadas miúdas de crianças verdes e do olhar verde da menina verde que atravessa o mato, feito as folhas maduras que rodopiam sobre seus cabelos cor de mel.

Respiro como se fosse a última vez. Reclamo diante do que sou. Nada fiz para melhorar as belezas de um mundo que recebi de graça. Não sei se partirei de mãos vazias. Não sei se deixarei qualquer lembrança. Talvez a relva esmagada denuncie meus passos.

Reconheço mensagens na natureza. Paro, olho escuto.

Rosas desfolhadas, na entrega do mel.

Refulgentes borboletas de flor em flor na colheita da vida

Resistirei à minha insignificância? Representarei o papel que recebi ou subverterei a ordem da vida para acreditar que sou feliz?

Rasgo papéis, recorto jornais, recolho fragmentos de idéias alheias. Refugio-me nos enganos da inspiração. Penso que penso.

Resisto, tenho que resistir ao desânimo que me desacredita. Por que não encher as mãos de flores e espalhá-las por aí deixando que as sementes me entreguem os mistérios de tudo quanto não sei?

Remontarei com pedaços de mim um mundo novo, pedaços que já se encontravam incorporados ao universo muito antes da minha chegada.

Respostas? Estão aí, nas coisas mais simples. No canto do bem-te-vi, no vôo do beija flor e na indiferença do homem que não consegue escutar os derradeiros gritos de um mundo em decadência..

Réquiem para uma natureza morta